"Cadê você? Cadê suas meias em cima da cama, seus chinelos pela casa, seus sorrisos que me soavam como músicas? Cadê você? Cadê seu gingado de bom moço, as toalhas no sofá, o futebol me importunando? Cadê você? Cadê você me enchendo o saco para dormir, a atenção redobrada quando a doença vinha me pegar, cadê você pra rir e chorar comigo ao mesmo tempo? Cadê você?… cadê você pra me deixar emocionada com flores, arrebatada em lágrimas por um gesto, como aquele que você fez quando um idoso passava na rua. O abraço. Cadê você? você me mordendo os braços, me fazendo cair na gargalhada, me dizendo coisas excitantes porém prazerosas, sensíveis, amorosas? Cadê você pra me levar embora pra casa quando o mundo estiver desabando e a dor for maior que tudo? Cadê você me carregando em seus braços ternos e me enchendo de paz quando a chuva me leva embora a esperança de ser viva? Cadê você me dizendo “calma, vai passar” e eu respirando fundo, ao passo do seu peitoral? Cadê você em cima de mim, me deixando louca, nua e sua? Cadê você pra me ler livros e histórias do qual me recordo até hoje? Histórias de conto de fadas que existiam pra mim até ontem? (…) Cadê você me abraçando forte e me dando sua respiração, seu fôlego, seu amor, seu carinho, seu afeto, seu tudo? Cadê você segurando minhas mãos, me pondo para dormir, me deixando sonhar com todas as possibilidades de continuar a escrever-lhe? Cadê você? Que solidão."
Igor Pires